273 dias, duas comissões especiais, dezenas de testemunhas, algumas audiências públicas e centenas de horas de discussões, debates, discursos.

“Pela minha família, eu voto sim!”. Pedaladas. Eduardo Cunha. Janaina Paschoal.

5 anos foram suficientes para que o longo processo de impeachment de Dilma Rousseff se resumisse a algumas anedotas, alguns jargões e poucos nomes.
Todo evento como esse faz brotar, em seus envolvidos, um sentimento de pertencimento a um “evento histórico”. Mais: de controle prévio da narrativa histórica.
O que quero dizer com isso? Que as partes sabem — ou julgam sabedoras de tal — que suas ações e falas serão registradas, reverberadas e que podem se tornar emblemáticas na história que será contada, ou lembrada.

Cientes, muitos se viram imbuídos de dever cívico e moral. Outros, viram uma oportunidade de marcarem definitivamente sua posição pessoal. Uma marca indelével que sintetizaria toda sua vida, seus valores, princípios, sua carreira política. (Conseguimos separar um do outro?)

No dia 17 de Abril de 2016, 511 deputados federais tomaram o microfone para “se consagrarem”. Ou assim eles imaginavam.

Mas as reverberações de acontecimentos decisivos nunca podem ser totalmente antevistas. Tampouco totalmente controladas.

Guardamos o pitoresco: Incontáveis e efusivas homenagens às famílias. Expelidas com enorme satisfação de quem ganha um lugar de destaque;
Guardamos a desculpa, repetida à exaustão, como mantra, como sátira, como farsa: “Pedaladas”;
Guardamos as expressões de ódio, revolta, surto: As sessões de descarrego — ou possessão? — de Janaina Paschoal;
Guardamos as tramas cinematográficas de traição: Eduardo Cunha. E sua vingança.

Recordamos os rostos de todos que homenagearam sua família?
Passamos a nos incomodar com “pedaladas”, ou sequer lembramos qual foi o crime de responsabilidade que culminou no impeachment?
Lembramos dos discursos de Janaina Paschoal, ou só de seus tremeliques fervorosos?
Evitamos dar poder aos vingativos inescrupulosos, ou aprendemos a temê-los e agradá-los?

Mas dentre tantas palavras que viraram ruído, de tantas faces que se diluíram nesse caldo amargo que engolimos à força, UM discurso ecoa.

“(…) Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff, pelo exército de Caxias, pelas Forças Armadas, pelo Brasil acima de tudo e por Deus acima de todos, o meu voto é sim”.

Foto de Dida Sampaio do Estadão, quando o discurso de Bolsonaro não reverberava… Anos mais tarde, o fotógrafo seria agredido pelos apoiadores de Bolsonaro durante um protesto em seu apoio.

Somos melhores, como nação, que nossas falas que ecoam e prevalecem?

Inicio esse exercício de escrita por necessidade, sobretudo pessoal, mas também para reverberar. Ecoando ou não…
…Preciso gritar o que não consigo mais represar em minha jaula craniana.

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